Maria Eugênia

EU VEJO TECLAS E IDÉIAS.

14

de
agosto

Eu vou ser titia

Hoje o mundo acabou. Mas e daí? Eu vou ser titia.
Hoje algum político roubou, um jornal noticiou, a TV repetiu, a rádio também, o povo discutiu, fulano se enfureceu. Mas e daí? Eu vou ser titia.
Hoje alguém guerreou, foi pra labuta, ficou revoltado com o pouco salário, pegou o trem lotado, amaldiçoou o chefe safado. Mas e daí? Eu vou ser titia. 
Hoje um rio transbordou, o barco virou, um prédio pegou fogo, o bombeiro apagou, o tempo virou, a chuva caiu repentina, estava sem guarda-chuva. Mas e daí? Eu vou ser titia.
Hoje o computador quebrou, o assunto travou, o trabalho agarrou, procurei por comida, comida sem graça, procurei por alguém, alguém não foi, fiquei sem lugar, ele não me ligou, liguei pra confirmar, não tinha sinal. Mas e daí? Eu vou ser titia.

12

de
agosto

Chamem Deus

Atenção! Há um descontínuo espaço-temporal na política brasileira. Certamente, trinta anos atrás, meu pai, provavelmente ansioso com a minha chegada, estava sentado numa cadeira qualquer, de uma Belo Horizonte que só conheço por fotografia, e discutia Sarney, Calheiros, Simon, Virgílio….
Hoje, quase trinta anos depois, eu, sentada numa cadeira de praia no Rio de Janeiro – isso porque, em princípio, as coisas mudam, e eu mudei (pelo menos de lugar!) –, discuto com meu pai Sarney, Calheiros, Simon, Virgílio…
Não pode ser! Chamem os físicos, os metafísicos, os místicos, os crentes. Chamem Deus! Porque há um descontínuo na história política brasileira. Não há o que escrever. Não há o que falar. Os fatos já constam nos livros de história – se repetem, repetem, repetem. É um presente sem nenhuma letra alterada. Estou temendo por um futuro sem nenhuma novidade.

28

de
junho

E quando faltam as palavras, nós temos as fotos de um fim de semana inesquecível!

 

26

de
junho

Cara amiga, Maria Eugenia,

Espero que me permita o atrevimento de chamá-la amiga, mas em meu coração já é assim qu e o sinto, pois, fato é, que não é com qualquer pessoa que troco confidências.
Gostaria muito de poder ser a substituta da Priscila, outrora mencionada, e que, em sendo assim, não faça feio.
Se não for o caso, me aceite então como uma nova Priscila e a minha sincera amizade.
Tenho algo a segredar a você, quase que imediatamente me identifiquei com esse seu “jeitin”, maquiagem, quase não uso, roupas, prefiro as mais confortáveis, os salto agulha, são uma realidade torturante demais para os meus pés preguiçosos, sempre preferi a amizade dos meninos a das meninas, já fui chamada de grossa, bruta, agressiva.
Mas a verdade é que odeio gente fresca, meu negócio é um bom papo, de preferência com muita piada, uma pizza naquele boteco pé sujo, com mesinhas na caçada, com um grupo de samba de raiz ou um cantor de MPB tocando, vendedor de chiclete, amendoim, rosa, cartão e mais um montão de coisas que não precisamos.
Não acho que isso nos faça menos mulher, nos faz mais humanas e menos bonecas. E, hoje, num mundo em que as pessoas cada vez mais se “platificam”, ser original é qualidade ímpar.
No Rio, faça como os cariocas, afogue as mágoas no mar de Copacabana, queime as tristezas nas areias do Leblon e sinta saudades ao por-do-sol nas pedras do Arpoador…e, se a vida te cobrar…pague com cheque sem fundos, pois só se leva da vida a vida que a gente leva e, sinceramente, não vale a pena perder tempo com questinamentos.

Um beijo.
Priscila.

8

de
junho

Palavras, palavras, PLÁGIOS

Santo Antônio do Leite (Lavras) tem o cheiro de lenha queimando, a sensação de água congelando e o som de um silêncio que se espalha pelo vento. Santo Antônio do Leite (Lavras) tem os meus avós, que não conheci, mas que estão lá, (os nossos acampamentos) as nossas festas santas, (os jogos de família dentro d’água) as trilhas no mato. Santo Antônio do Leite (Lavras) é o fim do mundo. Mas alto lá, não vá concordar! Santo Antônio do Leite (Lavras) tem a chave da minha infância, e pelo que lembro, passei embaixo de uma jabuticabeira (butiazeiro) ou em cima de uma árvore. Santo Antônio do Leite (Lavras) tem os meus irmãos pequenos, meus primos criados como irmãos, tem o “entra e sai” na minha casa. Santo Antônio do Leite (Lavras) é o fim do mundo. Mas alto lá, não ouse concordar! Santo Antônio do Leite (Lavras) tem “lá fora”, mata-burro e céu estrelado (carreira de cavalo proibida no meio da estrada com a Baia Grande). Santo Antônio do Leite (Lavras) tem uma menina cheia de terra, cheia de tinta e de machucados. Santo Antônio do Leite (Lavras) tem uma menina com uma bola na mão, sempre. Santo Antônio do Leite (Lavras) tem a riqueza das descobertas plenas e verdadeiras. Santo Antônio do Leite (Lavras) não tem nada de fim. Santo Antônio do Leite (Lavras) é o começo do meu mundo!

Cristiane Calazans (Mariana Abascal)

P.S. Meu primeiro plágio. Como eu queria ter escrito este texto.

25

de
maio

Carta a minha amiga Mari

Se apagássemos a nossa língua, o que seria da borboleta, da delicadeza; que restará ao entardecer, a lembrança, a pitanga, a Budapeste. Se esquecermos a nossa própria língua, como cantar nossa amizade, como sorrir das nossas culpas, tão doce culpa. Como explicar em outra língua que eu quero combinar como feijão e arroz, queijo e goiabada, carne de sol com manteiga de garrafa. Se olvidarmos de tudo que somos, e somos nossa língua, eu com meu “tumate”, você com a correção, seríamos pedaço de nenhum lugar. Eu gosto do amor porque senti saudade; gosto da felicidade porque conheço a dor. Gosto do beijo porque sinto desejo e por desejo digo tudo o que eu sou. Gosto da feijoada porque já tive fome, do cachorro porque é peludo; e gosto de você porque não sei por quê.  

 

23

de
maio

A culpa é da essência

Maria Eugênia anda preocupada. Deve ser coisa da tal essência. Renasceu duas vezes e em cada uma delas prometeu ressurgir mais como uma mulher de salto do que como um homem de saia. Não que sua orientação sexual não seja definida. Pelo que consta, é! Já a vi dizer convicta que gosta de barba roçando seu pescoço. Mas Maria Eugênia anda incomodada. É que ela sempre pertenceu mais ao mundo dos homens. Ela gostava mesmo era dos botecos apertados, das conversas animadas, das situações arriscadas. E pelo que parece esse verbo continua a se conjugar no presente.

Ela anda resmungando pelo guarda-roupa, às vezes parece que desenha no ar uma lembrança boêmia: toma uns goles de vento, ensaia um passo de samba, dedilha um violão imaginário. É! Depois de dois renascimentos. Só pode ser a tal da essência!

Eu juro que a vi treinar. Aprendeu a andar de salto, teve aulas de moda e arriscou até a se maquiar (que a perdoem as Muks). Mas deve ser a tal da essência. Ela continua é gostando da cerveja num bom copo sujo, de um pf num butiquim tradicional, de um pastel frito de qualquer esquina. Ela gosta mesmo é de usar rasteira prá ser mais fácil a volta prá casa, gosta de calça jeans e camiseta.

Acho que Maria Eugênia não pretende renascer de novo. Pelo que sei, gostou do mar e do sol. Espero que essa nova vida não lhe cobre o que em outras duas ela não conseguiu mudar.

22

de
maio

Esfinge

Amanhã vou sentar com Drummond. Alguém me fez lembrar-me de Drummond.  Amanhã, um pouco ausente, eu que preciso ser decifrada vou declamar, ignorante, a falta.    

 

“Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.”

Drummond

 

10

de
março

Excomunhão

Tem certas palavras que a gente acredita só habitarem os livros de história. Uma delas, para mim, é a tão em pauta “excomunhão”, que me remete às aulas sobre Idade Média. Estava enganada. Hoje, no século XXI, foram excomungados uma menina estuprada de nove anos, que deu fim a uma gravidez gemilar; o médico que fez o aborto; e todos os outros envolvidos na conduta.

Pergunto eu: será que foi também excomungado o estuprador que roubou dessa menina a inocência de uma vida? Ou ainda os muitos pedófilos que se alastram como pragas pelo mundo?  Será que constam nos autos excomungatórios os assassinos cruéis que arrastam crianças para assaltar carros, que destroem famílias para saciar um vício? Será que constam os nomes dos condutores das guerras, dos traficantes de armas, dos negociadores de vida? Será que se excomungam políticos, tomados pelo pecado da ganância, que se enriquecem às custas dos sonhos de uma nação, a assinalá-los comida, educação e saúde. Se não me falhe a memória, na lista de Dante, todos estes estão incluídos, até mesmo padres e papas. Já na lista da Igreja, falta a clareza dantesca.

Tudo isso me leva a crer (sim, eu creio!) que as minhas convicções da adolescência não eram apenas rebeldia. Não foi à toa que vi um fundamentalismo presente na Igreja, mas por ela negado; não foi por nada que sempre critiquei o atraso histórico do pensamento religioso. Não foi por acinte que separei Deus da Igreja.  Agora paira em mim a dúvida sobre o pecado dos excomungados da história. Foram mesmo pecadores? E me resta o eterno agradecimento àqueles que lutaram para separar o Estado da Igreja.

10

de
março

Sussurros do vento

Enfim eu entendo o significado de nostalgia. Entendo o tempo que passa. Enfim eu entendo o nó na garganta, o aperto no peito, os olhos cheios d’água.

Tudo parece pra sempre quando a gente tem vinte poucos anos. Tudo parece sem fim. Eu ainda vejo aquela casa cheia de garotos e garotas fazendo festa, eu ainda vejo o fogão à lenha a todo vapor, eu vejo as caixas de cerveja, a garrafa de cachaça, os maços de cigarro. Eu vejo o entra-e-sai enlouquecedor. Ouço as músicas, revivo as angústias, admiro as paixões. E tudo é tão claro, tão sincero, tão vivido, que vive sem fim dentro de mim.  

Eu sinto o cheiro da lembrança; caminho, às vezes, nos mesmos passos; vejo as mesmas cenas, que se repetem saudosamente. Será que é a proximidade dos meus trinta anos que vem fechando os meus vinte? Ou será que foi o sussurro do vento compartilhando os mesmos segredos?

Se eu soubesse escrever, eu escreveria sobre esses dias e essas noites infindáveis, sobre a irresponsabilidade, a loucura desmedida, as paixões tolhidas. Eu descreveria cada dia sem mudar nenhuma vírgula.

Eu escreveria sobre o tempo que muda, mas que não nos deixa sem um cheiro, sem um olhar, sem um suspiro de lembrança que nos levam vez ou outra a um passado tão presente.

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